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O custo de fazer negócio e os mitos do progresso

O custo de fazer negócio e os mitos do progresso
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Manifestante dança durante protesto em Vancouver, no Canadá, contra proposta de expansão do Trans Mountain, em 19 de novembro de 2016. Arquivo/Chris Helgren/Reuters “As pessoas vão morrer protestando contra o oleoduto da Trans Mountain”. A expressão contundente de David Dodge, ex-diretor do Banco do Canadá David Dodge, dita semana passada durante uma das muitas manifestações da sociedade civil contra a expansão da tubulação que servirá para transportar gás natural para a costa do Pacífico e conseguir novos mercados no exterior, põe o dedo na ferida de uma das questões mais sensíveis de nossa era, da qual não me canso de mencionar. O lucro ou as pessoas? O progresso ou a preservação do meio ambiente? O governo do Canadá, mesmo sob pressão intensa dos cidadãos que levam a sério os alertas dos cientistas que mostram os impactos causados no meio ambiente pelo uso abusivo dos combustíveis fósseis, decidiu enfrentar. Comprou o gasoduto já existente e o projeto de expansão da Kinder Morgan por US $ 4,5 bilhões depois que a empresa suspendeu os trabalhos diante da incerteza da sustentabilidade de seu negócio. E Dodge, num evento realizado quarta-feira passada num escritório de advocacia, justificou a atitude do primeiro-ministro Justin Trudeau. Para Dodge, a expansão do gasoduto vai ajudar a economia do país, já que o “impacto dos gargalos de transporte nos preços do petróleo canadense custa cerca de US $ 10 bilhões por ano”. Portanto, diz o executivo, não se justificam os atos da sociedade civil, também por que o empreendimento estaria atendendo aos padrões mundiais do ambiente. Dodge considera as manifestações como “o equivalente ao zelo religioso que leva ao desrespeito à lei de uma forma radical, que poderia levar à morte ... ” “Somos, coletivamente, uma sociedade disposta a permitir que os fanáticos obstruam a vontade geral da população? Isso acaba sendo um teste real para saber se realmente acreditamos no estado de direito”, disse ele. Sem considerar todo o drama vivido pelos indígenas que estão no caminho desse progresso que chegará para outros por um cano que atravessará seu território, há, no cerne desse discurso, uma negação de diversos estudos. Dodge não menciona os riscos ambientais que já existem e já estão transtornando a vida de 18 milhões de pessoas no mundo todo, deslocadas por terem que enfrentar os efeitos das mudanças climáticas causadas pelo uso dos combustíveis fósseis. E deixa, também, de lado, o impacto à saúde humana, já registrado em diversos relatórios. Apenas para citar um, e bem aqui perto: o Laboratório de Poluição Atmosférica da Universidade de São Paulo fez um estudo em 2005 onde concluiu que o paulistano perde, em média, dois anos de vida em função da poluição ambiental. “Diferentemente do cigarro, a poluição do ar não pode ser evitada”, concluíram os pesquisadores do estudo. Menosprezando tudo isso, o executivo do banco priorizou a economia do país. É parte de sua natureza, no fim das contas. E é esta reflexão que pode nos levar a tentar encontrar um caminho que não está na polarização, na dialética. Neste sentido, gosto da leitura de “O mito do progresso”, livro escrito por Gilberto Dupas dois anos antes de sua morte em 2008, e lançado pela Editora Unesp. Dupas lutou contra a ditadura militar nos anos 60, ocupou o cargo de presidente de uma empresa de papel e celulose, e quando o governo civil assumiu o poder, esteve como executivo na Caixa Econômica, no Banespa, além de ter sido Secretário de Agricultura e Abastecimento. É, portanto, um defensor do diálogo, cuja vida foi interrompida cedo demais por causa de um câncer. No capítulo em que se dedica a escrever sobre o meio ambiente e o futuro da humanidade, Dupas estuda o modelo de desenvolvimento implantado pela civilização global que “conduz à prioridade do conforto aparente sobre a saúde e a preservação da vida e da natureza”. E esmiuça, à luz de uma vontade clara que leva à disposição para se obter algum consenso nessa dinâmica, o papel do empreendedor: “A regra básica do empreeendedor dentro da lógica capitalista é a maximização do lucro. Regulação e restrições só são assimiladas quando definidas e punidas pelo setor público, ou quando a auto-regulação mostra vantagens mercadológicas significativas por melhorar a imagem do produto ou da empresa diante do mercado conumidor ou investidor. ... essa afirmação não inclui nenhum julgamento moral sobre as empresas, já que faz parte da natureza delas buscar continuamente estratégias para a maximização dos seus resultados. Portanto, a questão ambiental nunca será a prioridade maior de suas gestões, mas sim um problema a contornar ou utilizar para gerar melhores resultados econômicos a médio prazo. Resta à sociedade, por instrumentos que puder estruturar, fazer valer sua opinião sobre que riscos se dispõe a correr; e com que objetivos”, escreve Dupas. O caminho, portanto, indicado pelo cientista social, é justamente aquele que Dodge enfrentou na quarta-feira passada. No site da organização 350.org (o nome da ONG corresponde ao número de partículas por milhão de dióxido de carbono que o planeta teria condições de absorver – já estamos em 470), esta resistência que está sendo levada à frente por pessoas a favor de manter os combustíveis fósseis no solo está bem explicada. No mundo todo, são sete frentes de luta que estão dando certo, fazendo barulho, embargando obras. O Salve Lamu está contra a instalação da primeira usina a carvão do continente africano, fora a África do Sul e tem apoios nacionais e internacionais. Há um movimento também contra a instalação de outro oleoduto, da Ponte Bayou, ao sul da Louisiana: combinado com os efeitos das mudanças climáticas que já são sentidos, os pântanos da Louisiana – e as comunidades que prosperaram em seu entorno por gerações – estão ameaçados. Linha 3 é outra proposta de oleoduto que traria petróleo bruto das areias betuminosas de Alberta, no Canadá, até Superior, em Wisconsin, nos Estados Unidos, e há também uma organização maciça da sociedade civil contra ela. Aqui no Brasil, o movimento “No Fracking” vem resistindo, desde 2012, à prática de tirar gás de xisto com técnicas perigosas não só ao ambiente como à saúde humana. Por fim, o Gasoduto Trans Adriático – ou TAP, na abreviação do inglês – faz parte do Corredor Sul de Gás, um mega gasoduto de mais de três mil quilômetros que permitiria que o gás, um combustível fóssil poluente composto principalmente de metano, fluísse do Azerbaijão para a Europa, também tem resistência forte. E o Pare Adani mobilizou dezenas de milhares de pessoas em todo o mundo contra a instalação da usina de carvão Carmichael, proposta em Queensland, no extremo Nordeste da Austrália, pronta para ser a maior daquele país e uma das maiores do mundo. Como se vê, há muita luta, pouco diálogo. As empresas ainda podem, dia a dia, se surpreender com as atividades organizadas que fogem do atual senso comum do “cada um por si”, impondo uma agenda de iniciativas coletivas bem potente. Pode ser o caminho para uma civilização menos egoísta e mais aberta a considerar o progresso dominante como um mito que, segundo Dupas, que deve ser desvelado, já que é sempre “renovado por um aparato ideológico interessado em nos convencer que a história tem um destino certo – e glorioso – que dependeria mais da omissão embevecida das multidões do que da sua vigorosa ação e da crítica de seus intelectuais”.

“As pessoas vão morrer protestando contra o oleoduto da Trans Mountain”. A expressão contundente de David Dodge, ex-diretor do Banco do Canadá David Dodge, dita semana passada durante uma das muitas manifestações da sociedade civil contra a expansão da tubulação que servirá para transportar gás natural para a costa do Pacífico e conseguir novos mercados no exterior, põe o dedo na ferida de uma das questões mais sensíveis de nossa era, da qual não me canso de mencionar. O lucro ou as pessoas? O progresso ou a preservação do meio ambiente?

O governo do Canadá, mesmo sob pressão intensa dos cidadãos que levam a sério os alertas dos cientistas que mostram os impactos causados no meio ambiente pelo uso abusivo dos combustíveis fósseis, decidiu enfrentar. Comprou o gasoduto já existente e o projeto de expansão da Kinder Morgan por US $ 4,5 bilhões depois que a empresa suspendeu os trabalhos diante da incerteza da sustentabilidade de seu negócio. E Dodge, num evento realizado quarta-feira passada num escritório de advocacia, justificou a atitude do primeiro-ministro Justin Trudeau.

Para Dodge, a expansão do gasoduto vai ajudar a economia do país, já que o “impacto dos gargalos de transporte nos preços do petróleo canadense custa cerca de US $ 10 bilhões por ano”. Portanto, diz o executivo, não se justificam os atos da sociedade civil, também por que o empreendimento estaria atendendo aos padrões mundiais do ambiente. Dodge considera as manifestações como “o equivalente ao zelo religioso que leva ao desrespeito à lei de uma forma radical, que poderia levar à morte ... ”

“Somos, coletivamente, uma sociedade disposta a permitir que os fanáticos obstruam a vontade geral da população? Isso acaba sendo um teste real para saber se realmente acreditamos no estado de direito”, disse ele.

Sem considerar todo o drama vivido pelos indígenas que estão no caminho desse progresso que chegará para outros por um cano que atravessará seu território, há, no cerne desse discurso, uma negação de diversos estudos. Dodge não menciona os riscos ambientais que já existem e já estão transtornando a vida de 18 milhões de pessoas no mundo todo, deslocadas por terem que enfrentar os efeitos das mudanças climáticas causadas pelo uso dos combustíveis fósseis. E deixa, também, de lado, o impacto à saúde humana, já registrado em diversos relatórios. Apenas para citar um, e bem aqui perto: o Laboratório de Poluição Atmosférica da Universidade de São Paulo fez um estudo em 2005 onde concluiu que o paulistano perde, em média, dois anos de vida em função da poluição ambiental.

“Diferentemente do cigarro, a poluição do ar não pode ser evitada”, concluíram os pesquisadores do estudo.

Menosprezando tudo isso, o executivo do banco priorizou a economia do país. É parte de sua natureza, no fim das contas. E é esta reflexão que pode nos levar a tentar encontrar um caminho que não está na polarização, na dialética. Neste sentido, gosto da leitura de “O mito do progresso”, livro escrito por Gilberto Dupas dois anos antes de sua morte em 2008, e lançado pela Editora Unesp. Dupas lutou contra a ditadura militar nos anos 60, ocupou o cargo de presidente de uma empresa de papel e celulose, e quando o governo civil assumiu o poder, esteve como executivo na Caixa Econômica, no Banespa, além de ter sido Secretário de Agricultura e Abastecimento. É, portanto, um defensor do diálogo, cuja vida foi interrompida cedo demais por causa de um câncer.

No capítulo em que se dedica a escrever sobre o meio ambiente e o futuro da humanidade, Dupas estuda o modelo de desenvolvimento implantado pela civilização global que “conduz à prioridade do conforto aparente sobre a saúde e a preservação da vida e da natureza”. E esmiuça, à luz de uma vontade clara que leva à disposição para se obter algum consenso nessa dinâmica, o papel do empreendedor:

“A regra básica do empreeendedor dentro da lógica capitalista é a maximização do lucro. Regulação e restrições só são assimiladas quando definidas e punidas pelo setor público, ou quando a auto-regulação mostra vantagens mercadológicas significativas por melhorar a imagem do produto ou da empresa diante do mercado conumidor ou investidor. ... essa afirmação não inclui nenhum julgamento moral sobre as empresas, já que faz parte da natureza delas buscar continuamente estratégias para a maximização dos seus resultados. Portanto, a questão ambiental nunca será a prioridade maior de suas gestões, mas sim um problema a contornar ou utilizar para gerar melhores resultados econômicos a médio prazo. Resta à sociedade, por instrumentos que puder estruturar, fazer valer sua opinião sobre que riscos se dispõe a correr; e com que objetivos”, escreve Dupas.

O caminho, portanto, indicado pelo cientista social, é justamente aquele que Dodge enfrentou na quarta-feira passada. No site da organização 350.org (o nome da ONG corresponde ao número de partículas por milhão de dióxido de carbono que o planeta teria condições de absorver – já estamos em 470), esta resistência que está sendo levada à frente por pessoas a favor de manter os combustíveis fósseis no solo está bem explicada. No mundo todo, são sete frentes de luta que estão dando certo, fazendo barulho, embargando obras.

O Salve Lamu está contra a instalação da primeira usina a carvão do continente africano, fora a África do Sul e tem apoios nacionais e internacionais. Há um movimento também contra a instalação de outro oleoduto, da Ponte Bayou, ao sul da Louisiana: combinado com os efeitos das mudanças climáticas que já são sentidos, os pântanos da Louisiana – e as comunidades que prosperaram em seu entorno por gerações – estão ameaçados. Linha 3 é outra proposta de oleoduto que traria petróleo bruto das areias betuminosas de Alberta, no Canadá, até Superior, em Wisconsin, nos Estados Unidos, e há também uma organização maciça da sociedade civil contra ela. Aqui no Brasil, o movimento “No Fracking” vem resistindo, desde 2012, à prática de tirar gás de xisto com técnicas perigosas não só ao ambiente como à saúde humana.

Por fim, o Gasoduto Trans Adriático – ou TAP, na abreviação do inglês – faz parte do Corredor Sul de Gás, um mega gasoduto de mais de três mil quilômetros que permitiria que o gás, um combustível fóssil poluente composto principalmente de metano, fluísse do Azerbaijão para a Europa, também tem resistência forte. E o Pare Adani mobilizou dezenas de milhares de pessoas em todo o mundo contra a instalação da usina de carvão Carmichael, proposta em Queensland, no extremo Nordeste da Austrália, pronta para ser a maior daquele país e uma das maiores do mundo.

Como se vê, há muita luta, pouco diálogo. As empresas ainda podem, dia a dia, se surpreender com as atividades organizadas que fogem do atual senso comum do “cada um por si”, impondo uma agenda de iniciativas coletivas bem potente. Pode ser o caminho para uma civilização menos egoísta e mais aberta a considerar o progresso dominante como um mito que, segundo Dupas, que deve ser desvelado, já que é sempre “renovado por um aparato ideológico interessado em nos convencer que a história tem um destino certo – e glorioso – que dependeria mais da omissão embevecida das multidões do que da sua vigorosa ação e da crítica de seus intelectuais”.



Fonte:G1

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