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A verdade sobre desmatamento em terras indígenas

A verdade sobre desmatamento em terras indígenas
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Herdei do meu pai o hábito de tomar café da manhã na rua

Herdei do meu pai o hábito de tomar café da manhã na rua. Adoro padarias, me encanto com o aconchego que encontro no cheiro do café e do pão fresco. Geralmente levo algo para ler, mas na maioria das vezes alguém puxa conversa e me deixo levar pelo prazer de fazer boas relações e contato logo cedo. Começa-se bem o dia desse jeito.

Ultimamente, porém, com essa onda de polarização que tomou conta das conversas, não tem sido muito fácil encontrar bons motivos para se bater-papo. Como não gosto de usar fones de ouvido, busco me entreter com um bom livro ou jornal, para escapar às armadilhas de cair numa discussão inútil. Sou mais de dividir pensamentos sem julgamentos e, de preferência, com bastante conteúdo de informações.

Mas, ontem pela manhã, não teve jeito. Meu café foi acompanhado por uma conversa que me desagradou bastante. Um grupo de três amigos, inconformados com a política social dos governos anteriores e esperançosos com a nova administração do presidente eleito, tecia comentários sobre vários setores da política. Não faziam elogios, adianto. Aos professores dedicaram uma saraivada de impropérios, chamando-os de preguiçosos, fazedores de cabeça e muito mais.

Comecei a acelerar meu café. Até que as críticas se voltaram ao fato de o presidente eleito ter voltado atrás com relação à junção do ministério do meio ambiente com a agricultura. E a ira do grupo era contra os indígenas. Quando ouvi a frase: “Os índios venderam a Amazônia por meia dúzia de apitos”, levantei-me, paguei a conta e fui embora, vociferando.

Quem me acompanha aqui neste espaço sabe o quanto admiro e respeito os povos indígenas. E não é à toa. Caminhei para casa, de volta, com uma péssima sensação. Não havia dados que comprovassem aquilo que diziam. Como no grupo havia uma pessoa estrangeira, certamente ela teria fatos inverídicos para contar quando voltasse à sua terra. A imagem do Brasil vai, assim, se tornando pior.

De certa forma, me culpabilizo um pouco por uma situação dessas. Sou profissional da informação, e aquelas pessoas estavam desinformadas, no mínimo. Não posso tentar contestar suas convicções, que denotam uma rejeição à diversidade, o que anda me preocupando aqui no país. Por ora, no entanto, vou me ater àquilo que posso fazer: informar.

Assim que cheguei em casa fiz contato com meu amigo Dannyel Sá, do Instituto Socioambiental , a quem sempre recorro quando quero informações recentes sobre os indígenas. O ISA se posiciona há 25 anos como aliado dos povos indígenas, dos quilombolas, das populações tradicionais e, recentemente, foi considerada a melhor ONG do Brasil pelo Instituto Doar e pela Rede de Filantropia. Dannyel ouviu minha história, compartilhou meus lamentos com os rumos da prosa de alguns brasileiros (não são todos) e me deu subsídios que me ajudam a responder, caso o grupo que estava ao meu lado quisesse, de fato, perguntar, sobre quão os indígenas ajudam a preservar, não a destruir, terras brasileiras.

Uma nota publicada no site do Ministério da Justiça em 2014 transcreve o Boletim Transparência Florestal da Amazônia Legal, do Instituto Imazon, em que as terras indígenas são apresentadas como aquelas em que há o menor índice de desmatamento na Amazônia Legal. Enquanto, nas áreas privadas, a porcentagem de desmatamento ficava em torno de 59%, nas terras indígenas este percentual estava em 1%.

“Além do modo como as comunidades indígenas exploram os recursos naturais e protegem seus territórios, esse resultado está ligado à atuação da Fundação Nacional do Índio, por meio da Coordenação-Geral de Monitoramento Territorial, com ações de vigilância, fiscalização, prevenção de ilícitos e conflitos em terras indígenas, além de gerenciamento de informações de monitoramento territorial e ambiental”, diz o relatório.

É, portanto, uma ação que vem sendo acompanhada, inclusive por não-índios que prezam pelo meio ambiente, para ajudar à não destruição. A Funai sempre fiscaliza. O relatório mostra ainda que até mesmo nas Unidades de Conservação este percentual é maior: 27% destes locais foram desmatados.

“As TIs mais desmatadas estão localizadas nos estados do Pará (PA), Rondônia (RO), Mato Grosso (MT) e Amazonas (AM). No período avaliado, 75% das terras indígenas mais desmatadas apresentam algum tipo de situação de vulnerabilidade específica, tais como empreendimentos de infraestrutura, situação sub judice e/ou ocupação não-indígena. Em 2013, as ações de monitoramento territorial da Funai foram realizadas nas 20 terras indígenas com maior índice de desmatamento”, diz o relatório.

“Além do modo como as comunidades indígenas exploram os recursos naturais e protegem seus territórios, esse resultado está ligado à atuação da Fundação Nacional do Índio, por meio da Coordenação-Geral de Monitoramento Territorial, com ações de vigilância, fiscalização, prevenção de ilícitos e conflitos em terras indígenas, além de gerenciamento de informações de monitoramento territorial e ambiental”, diz o relatório.

É, portanto, uma ação que vem sendo acompanhada, inclusive por não-índios que prezam pelo meio ambiente, para ajudar à não destruição. A Funai sempre fiscaliza. O relatório mostra ainda que até mesmo nas Unidades de Conservação este percentual é maior: 27% destes locais foram desmatados.

“As TIs mais desmatadas estão localizadas nos estados do Pará (PA), Rondônia (RO), Mato Grosso (MT) e Amazonas (AM). No período avaliado, 75% das terras indígenas mais desmatadas apresentam algum tipo de situação de vulnerabilidade específica, tais como empreendimentos de infraestrutura, situação sub judice e/ou ocupação não-indígena. Em 2013, as ações de monitoramento territorial da Funai foram realizadas nas 20 terras indígenas com maior índice de desmatamento”, diz o relatório.

Para um aprofundamento ainda maior, é bom consultar as reservas acadêmicas. No site da SciELO ( Scientific Electronic Library Online), um banco de dados bibliográfico, biblioteca digital e modelo cooperativo de publicação digital de periódicos, há um artigo no Dossiê Amazônia Brasileira, escrito por Leandro Valle Ferreira, Eduardo Venticinque e Samuel Almeida mostra, com dados e estudos, o que realmente vem afetando e muito a Amazônia: o desmatamento, para os articulistas, vem ligado às políticas de desenvolvimento na região, “tais como especulação de terra ao longo das estradas, crescimento das cidades, aumento dramático da pecuária bovina, exploração madeireira e agricultura familiar (mais recentemente a agricultura mecanizada), principalmente ligada ao cultivo da soja e algodão”.

A primeira coisa que fazem os desenvolvimentistas – sim, é desta forma que se desenvolve um país – é abrir uma estrada. Para fazer este caminho é preciso arrancar árvores, que são vendidas a madeireiros, que por sua vez vendem para a fabricação de muitos objetos que a civilização considera indispensáveis. Mas o crescimento econômico não chega a quem cedeu as árvores, porque a exportação cresce também. Em outras palavras: a madeira da Amazônia é vendida para outros países. E não é por meia dúzia de apitos.

O resultado do estudo, feito em 2005, demonstra a importância das áreas protegidas (Unidades de Conservação e Terras Indígenas) como uma das ferramentas “para conter ou diminuir o processo do desmatamento nos três estados que mais contribuíram com o desmatamento na Amazônia legal e contraria parcialmente a hipótese generalizada de que as áreas protegidas na Amazônia não estão cumprindo sua função principal na conservação e uso racional dos recursos na região, pelo fato de que muitas não estão ainda implementadas e apresentam diferentes graus de vulnerabilidade”.

Aqui estão os dados, as informações que podem sustentar uma conversa que não seja, apenas, baseada em pré-conceitos sem base. As regras da democracia nos impõem o respeito a tais opiniões. Mas que elas não assumam ares de verdade. Porque não são.

Amélia Gonzalez — Foto: Arte/G1



Fonte:G1

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