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Reações de ambientalistas à escolha do novo ministro cético do clima

Reações de ambientalistas à escolha do novo ministro cético do clima
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Aqui no Brasil, mais especificamente na cidade do Rio de Janeiro, a comunidade internacional se reuniu pela primeira vez, em 1992, para debater alternativas que pudessem diminuir as emissões de gases do efeito estufa nocivas ao meio ambiente e à vida humana

Aqui no Brasil, mais especificamente na cidade do Rio de Janeiro, a comunidade internacional se reuniu pela primeira vez, em 1992, para debater alternativas que pudessem diminuir as emissões de gases do efeito estufa nocivas ao meio ambiente e à vida humana. Este mesmo país, que vem tendo importância fundamental nas cúpulas do clima, como a que bateu o martelo para assinar o Acordo de Paris em 2015, acaba de alçar para o cargo de ministro das Relações Exteriores alguém que critica radicalmente todo este movimento, chama de climatismo o esforço mundial de combate à mudança climática, diz que é "perversão da esquerda". A indicação de Ernesto Araújo para o cargo, anunciada nesta quinta-feira (15) pelo presidente eleito Jair Bolsonaro, provocou reações dos ambientalistas.

O site do Observatório do Clima, entidade que vai organizar no próximo dia 21 o 6º Seminário Nacional de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), lançou uma nota repudiando a escolha:

"O Itamaraty foi o primeiro ministério a entender como o patrimônio natural brasileiro é um dos ativos mais importantes dos tempos modernos. O Brasil foi protagonista na Conferência de Estocolmo, em 1972; foi berço das grandes convenções de ambiente e desenvolvimento sustentável da ONU e da Agenda 21, em 1992; liderou na defesa dos países em desenvolvimento no Protocolo de Kyoto, em 1997; foi o parteiro dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, em 2012; e negociador fundamental do Acordo de Paris, em 2015. Agora, está escalado para sediar a próxima conferência do clima, a COP25, em 2019. Abdicar essa liderança em nome de uma ideologia de tons paranoicos contrariaria diretamente o interesse nacional, que o presidente eleito, Jair Bolsonaro, prometeu colocar "acima de tudo" em sua campanha", diz a nota.

O editor de ambiente global do jornal britânico "The Guardian", Jonathan Watts, escreve, em artigo, que o novo ministro "acredita que mudança climática é trama marxista", corroborando assim o medo que se tem de que o país passe a ter uma imagem de pouca credibilidade no setor ambiental a partir de agora.

"A magra esperança agora para os defensores do clima é que o poderoso lobby do agronegócio venha a perceber que a chuva para suas plantações depende de uma Amazônia saudável e de um ambiente global estável. Mais de 80% dos municípios brasileiros sofreram secas nos últimos cinco anos, que os cientistas associaram ao desmatamento", escreve ele.

Daqui a 17 dias vai acontecer a próxima cúpula do clima, convocada pelas Nações Unidas, a COP-24, que vai acontecer na Polônia, na cidade de Katowice. Desde já, os holofotes do mundo estão virados para o país que vai receber quase 30 mil delegados de todo o mundo nos dias 3 e 4 de dezembro. O plano para esta reunião é adotar um pacote de medidas que ajudem a implementar o Acordo de Paris, começando assim a definir a política climática global para os próximos anos. O lema da reunião de cúpula do meio ambiente será "Mudando juntos". E vai dando uma certa nostalgia diante das recentes declarações céticas dos próximos dirigentes do Brasil, país que tem a maior biodiversidade do mundo, a maior floresta tropical do mundo. Quem irá representar o país nesta reunião?

O próximo presidente da COP 24, o vice-ministro do meio ambiente polonês Kurtyka, já fez uma declaração, explicando que o cenário global está mudando drasticamente. Ele está convencido de que conseguirá, em seu país, apoio necessário para levar em conta o aspecto social da transição para uma economia de baixo carbono.

Em outubro, quando Jair Bolsonaro ainda estava em campanha, o Itamaraty anunciou que gostaria de sediar a COP 25, que vai ocorrer em novembro do ano que vem. À época, um comunicado do Ministério de Relações Exteriores contava que a realização da COP-25 no Brasil "reflete o consenso na sociedade brasileira sobre a importância e a urgência de ações para ajudar a combater a mudança climática". Com a gestão que vai começar em janeiro, no entanto, é bem possível que percamos a chance de realizar aqui um evento mundial capaz de ajudar a traçar alguns novos rumos a caminho da mudança de paradigma em prol do meio ambiente que até o papa Francisco já alertou ser necessária.

Em vez disso, a expectativa é de tempos tormentosos para os ambientalistas no país. O discurso nacionalista adotado pelo governante eleito, endossado pelo ministro que escolheu para gerir os assuntos diplomáticos, faz crer que o cuidado com o meio ambiente será diretamente linkado ao lucro que os bens naturais possam trazer para os cofres públicos, e só.

Em artigo publicado ainda um dia antes do anúncio do novo ministro cético do clima, o jornal eletrônico "Nature Sustainability" lembra os êxitos que o Brasil já alcançou nos setores do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável.

"O país reconheceu legalmente a importância do meio ambiente como base de bem-estar em sua Política Nacional do Meio Ambiente de 1981 e em sua Constituição, bem antes da maioria dos demais países. Em 2012, o país atingiu a menor taxa de desmatamento desde o início dos registros. Tais conquistas resultaram de múltiplas ações direcionadas para o mesmo objetivo, por cientistas, reguladores e ativistas", diz o texto.

O que se teme, com a chegada ao poder de Jair Bolsonaro, é que “mudanças radicais” venham a minar todo este trabalho.

"Mudanças potenciais incluem a redução dos requisitos de licenciamento ambiental, o relaxamento do controle sobre agrotóxicos e a retirada do Acordo de Paris sobre mudanças climáticas. Essas mudanças ocorrerão num país onde 145 ativistas ambientais foram mortos desde 2015, onde ataques contra funcionários das agências ambientais aumentaram recentemente. Para alguns comentaristas, o futuro da sustentabilidade no Brasil parece terrível".

Para ajudar a enfrentar a turbulência, o jornal pôs no ar alguns artigos de cientistas sociais. "Precisamos de provas convincentes para apoiar o desenvolvimento sustentável e para tornar evidente que os passos para trás na política de sustentabilidade não são apenas ruins para o meio ambiente, mas para os brasileiros e para o mundo".

No seu livro mais recente, "21 lições para o século 21" (Ed. Companhia das Letras), o historiador Yuval Noah Harari fala sobre o ceticismo quanto à mudança climática, algo comum à direita nacionalista. Para ele, o aquecimento global é uma ameaça mais vaga e prolongada do que uma bomba atômica. Dessa forma, sempre que as considerações ambientais impõem algum sacrifício, os nacionalistas podem ser tentados a pôr "interesses nacionais" em primeiro lugar. E se tranquilizam, dizendo que podem se preocupar com o meio ambiente mais tarde, "ou deixar isso para pessoas de outros lugares".

Escassez global de alimentos, cidades inundadas e centenas de milhões de refugiados a cruzar fronteiras são apenas alguns dos resultados do descaso com o que os estudos científicos têm comprovado sobre mudanças climáticas. É necessário ter uma perspectiva global, já que a ameaça é sobre o futuro da civilização. E não é uma questão de acreditar ou não, é ciência.

— Foto: Arte/G1

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Fonte:G1

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