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O que ganhamos e o que perdemos com a era digital?

O que ganhamos e o que perdemos com a era digital?
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Para chegar, de transporte público, ao bairro contíguo ao meu, aqui na Zona Sul do Rio de Janeiro, eu preciso sair de casa com pouco mais de uma hora de antecedência nos fins de semana

Para chegar, de transporte público, ao bairro contíguo ao meu, aqui na Zona Sul do Rio de Janeiro, eu preciso sair de casa com pouco mais de uma hora de antecedência nos fins de semana. Em dias de semana, este prazo aumenta. O único ônibus que faz o trajeto para me deixar onde preciso ir, costuma trafegar pouquíssimo, e aos cidadãos que precisam dele resta... esperar. Tenho a opção de usar um transporte para chegar ao Metrô e, de lá, um ônibus chamado Metrô na Superfície, que também demora bastante para sair do lugar. E esta minha experiência não deve ser diferente da de outros tantos cariocas.

Estava ontem (18) numa dessas viagens, e dei linha aos meus pensamentos soltos. Na manhã do dia 14 eu conversara, via rede social, com o estudante Sandro, que mora em Catulé, interior da Bahia, cidade que fica a mais de 1,6 mil km do Rio de Janeiro. Apesar de tão mais longe – a distância entre os dois barros é de nove quilômetros – “cheguei” a Sandro num piscar de olhos.

Não há moral da história. Dirão que as distâncias ficaram menores desde que o telefone foi criado, o que é verdade. Mas a minha linha de pensamentos foi sendo alimentada por subsídios que pedi emprestados ao sul-coreano Byung-Chul Han, autor do livro “No enxame” (Ed. Vozes) que eu li durante a viagem. Byung-Chul é também autor de “Sociedade do cansaço”, editado em 2015 pela Vozes, a quem já me referi neste espaço.

No enxame (Ed. Vozes) — Foto: Arquivo Pessoal

Assim como no livro que lançou há três anos, neste também o filósofo e professor sul-coreano, de 59 anos, que estudou e mora na Alemanha, não se estende muito. Nas 104 páginas, ele transmite a mensagem de forma direta. Seu mote é a mídia digital, são os dispositivos que nos tornam ao mesmo tempo perto das pessoas – em rede - e fisicamente longe do contato.

Antes de contar a vocês mais sobre o livro e as reflexões que me afetaram, quero dizer que durante a minha viagem, embora com alguma impaciência pela demora no trajeto, pude conversar e ajudar uma senhora de 84 anos que me deu uma lição de vida. Andava sozinha, sem ajuda, e só se confundiu um pouco na hora de escolher a saída na estação do Metrô. Foi uma prosa boa. Considerei um ganho, que me fez esquecer a chatice do resto da viagem.

É disso que Byung-Chul trata na parte do livro onde ele reflete sobre o isolamento que caracteriza o homo digitalis :

“O habitante digital da rede não se reúne. Falta a ele a interioridade da reunião que produziria um Nós. Eles são, antes de tudo, isolados para si, singularizados, que apenas se sentam diante da tela. Mídias eletrônicas como o rádio reúnem pessoas, enquanto as mídias digitais as singularizam”, escreve ele.

Eu não teria feito contato com a senhorinha que me ensinou algumas lições se abrisse mão de ir ao meu destino fisicamente em prol de uma conversa “via zap”. Assim como, tenho certeza, minha entrevista com Sandro traria a vocês muito mais riqueza se lá eu pudesse estar. O que estamos perdendo? O que estamos ganhando com a era digital?

Ganhamos voz. Mas é uma voz solitária, “abarcada por uma desintegração generalizada do comum e do comunitário. A solidariedade desaparece. A privatização avança até a alma. A erosão do comunitário torna um agir comum cada vez mais improvável”, reflete o filósofo. Não nos contentamos mais em consumir as informações passivamente, mas queremos produzi-las, comunicá-las. Ganhamos, assim, as fake news.

“A desmediatização da comunicação faz com que jornalistas, esses antigos representantes elitistas, esses ‘fazedores de opinião’ e mesmo ‘sacerdotes da opinião’ , pareçam completamente superficiais e anacrônicos”, alfineta Byung-Chul.

O perigo disso é a massificação, quando linguagem e cultura se achatam e se tornam vulgares, na opinião do coreano. Estamos vivendo também, por consequência, o fim dos políticos no sentido enfático, e vimos isto recentemente no Brasil, quando o candidato mais votado à presidência não compareceu a debates mas fez sua campanha basicamente pela internet. Perde-se a estratégia política, que precisa de uma soberania sobre a produção e a distribuição da informação. Tudo vira instantâneo e, em tese, transparente.

“A transparência total força a comunicação política a uma temporalidade que torna impossível um planejamento lento e de longo prazo. Não é mais possível deixar que as coisa amadureçam. O futuro não é a temporalidade da transparência. A transparência é dominada pela presença e pelo presente”, escreve o autor.

Mas, desse jeito, é difícil para os políticos praticar a ponderaração, o debate, a reflexão. Um prefeito de uma cidade europeia, em entrevista a Byung-Chul, ponderou que tamanha transparência torna difícil para os políticos até mesmo discutirem abertamente temas ou posições impopulares num círculo de pessoas. Há sempre a possibilidade de alguém estar gravando. Sim, isto pode ser um ganho se a ferramenta servir propriamente para desvelar falcatruas. Mas a ditadura da transparência, lembra o autor, não dá voz a opiniões discordantes ou ideais incomuns.

“Muito dificilmente se pondera algo”, escreve.

Há, também, uma crise que se percebe nas versões sempre bonitas e vivas das imagens captadas e editadas pelos dispositivos. “Em nosso tempo, as imagens são mais vivas do que os seres humanos”, diz Byung-Chul. Este efeito visual tira da fotografia seu papel de representação, há de se convir. Uma imagem que acompanha “outra forma de vida, na qual tanto o vir a ser quanto o envelhecer, tanto o nascimento quanto a morte são apagados”.

A era digital é, também, a era do desempenho, que transforma todo o tempo em tempo de trabalho. Não há ócio, e o “desaceleramento” apenas diminui a velocidade do tempo de trabalho, em vez de transformá-lo em outro tempo. Perdemos a exploração das máquinas de trabalho, mas os aparatos digitais “produzem uma nova coação, uma nova exploração”.

“Todos carregam o trabalho consigo como um depósito de trabalho. Assim não podemos mais escapar do trabalho”, escreve Byung-Chul.

As reflexões do autor nos levam a acreditar que há mais perdas do que ganhos se não tomarmos cuidados. Podemos nos escravizar a outras máquinas, e contra essas não temos revolta como aconteceu no movimento conhecido por Ludismo, início do século XIX. Agora nos tornamos parceiros dos nossos algozes. A sociedade digital de vigilância, que tem acesso ao inconsciente coletivo, ao comportamento social, “desenvolve traços totalitários”, alerta Byung-Chul.

O livro vale a pena como alimento para reflexões importantes da nossa era.

Amélia Gonzalez — Foto: Arte/G1

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Fonte:G1

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