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Que dia histórico!

Que dia histórico!
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Em menos de 12 horas, entre os dias 2 e 3 de janeiro, as notícias que surgiram no campo da astronomia e astronáutica vão fazer com que os livros dessas duas disciplinas precisem ser reescritos

Em menos de 12 horas, entre os dias 2 e 3 de janeiro, as notícias que surgiram no campo da astronomia e astronáutica vão fazer com que os livros dessas duas disciplinas precisem ser reescritos. Ao menos uns 2 capítulos, com certeza!

Então, vamos aos fatos!

Ultima Thule: os dados enviados pela sonda New Horizons confirmam que o formato do objeto lembra o de um amendoim — Foto: NASA/JHU-APL/SWRI

Na madrugada da virada do ano, a sonda New Horizons fez o seu planejado sobrevoo em Ultima Thule. Conhecido oficialmente como 2014 MU69, esse objeto é um membro do Cinturão de Kuiper, que fica no limiar do Sistema Solar. O cinturão é o lar de milhões de objetos gelados que quando são puxados para o interior do Sistema Solar se transformam em cometas.

Conheça Ultima Thule, objeto mais distante já explorado no espaço

Por causa da distância imensa, Ultima Thule está a 6,5 bilhões de km, nem o mais potente telescópio da Terra consegue uma imagem com detalhes desses objetos. Eles se apresentam como pontos de luz apenas. Por isso, depois de passar por Plutão, a missão da New Horizons foi estendida para visitar um desses objetos. A oportunidade de fazer um sobrevoo e tirar imagens de pertinho não podia ser desperdiçada, ainda mais que a nave já ia estar lá mesmo, bastavam pequenos desvios de trajetória.

E nesta quarta feira (2), as primeiras imagens desse objeto foram divulgadas em uma coletiva de imprensa na NASA e os resultados são fantásticos. Mesmo não sendo as melhores imagens ainda, ou seja, as imagens obtidas quando a nave estava mais próxima do alvo, o que vimos já deixou todo mundo extasiado.

Em primeiro lugar, Ultima Thule é de fato um objeto duplo e mais, é um binário de contato. Traduzindo, ele é composto por duas partes principais que se formaram cada uma através de incontáveis colisões de objetos pequenos. Aos poucos, as duas partes foram se aproximando até que se juntaram de forma bem suave. Como resultado, as duas partes apenas se tocaram e estão nada mais firme do que simplesmente encostadas formando dois lobos de um mesmo objeto!

Outra coisa que chamou a atenção é a coloração do objeto, um alaranjado bem familiar. É que a New Horizons encontrou essa mesma coloração na Planície Sputnik, em Plutão, e no polo norte de Caronte. Essa coloração foi associada a uma deposição de material volátil, que neste caso, partiu de Plutão e foi parar em Caronte. É claro que o processo é totalmente diferente em Ultima Thule, mas a ideia proposta é que esse material volátil alaranjado é típico de objetos da região. Aliás, de acordo com a coloração do objeto, foi possível identificá-lo como um membro típico dos chamados objetos "frios" do Cinturão de Kuiper, uma subclasse desses objetos.

Outros três resultados interessantes divulgados na segunda coletiva nesta quinta-feira (3), são que Ultima Thule não tem luas. Para ser mais preciso, nenhum objeto menor que 100 metros ou maior que 500 metros foi encontrado orbitando MU69. Pode ser que ainda possa existir alguma coisa entre 100 e 500 metros que não foi percebido até agora. Isso parece estranho, mas é que as imagens recebidas até o momento foram obtidas desde longe e muito perto que permitiriam encontrar objetos nesses limites de tamanho. As imagens que vão preencher essa lacuna estão na nave e serão baixadas em breve. Outras constatações são que Ultima Thule não tem anéis e nem atmosfera, ao menos nada muito evidente nas imagens baixadas até agora.

Ultima Thule é um núcleo de cometa que nunca virou cometa, ou seja, nunca foi puxado para o Sistema Solar interior e sofreu a ação intensa da luz e calor do Sol. De fato, olhando bem para Ultima e o núcleo do cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko visitado pela sonda Rosetta, podemos ver que os dois são muito parecidos. Dois lobos em contato por um “pescoço” ou uma ponte. Não foi possível saber ainda a massa desse objeto, pois sem um satélite em volta, a estimativa tem que partir da densidade do material. Os dados espectroscópicos que permitem identificar a composição de Ultima ainda estão na nave e têm uma interpretação mais demorada, por isso só devem aparecer no mês que vem.

A conclusão é que finalmente conseguimos ver um planetesimal, como são chamados os pequenos elementos que no começo do Sistema Solar foram se chocando para formar os planetas. A New Horizons pode ser encarada como uma máquina do tempo, que nos fez regredir até os primeiros momentos do Sistema Solar e nos permitiu ver como eram as peças que o formaram!

A conquista do lado oculto da Lua

A segunda notícia da semana vem de mais perto, a nossa Lua. Lembra eu falei aqui que 2019 ia ser o ano da reconquista da Lua? Pois então, o primeiro passo foi dado. E que passo!

Primeira imagem do lado oculto da Lua feita pela sonda. — Foto: Administração Nacional Espacial da China/Xinhua News Agency/AP

A China conseguiu fazer o pouso suave do seu módulo Chang’e 4 no lado oculto da Lua. Você deve estar se perguntando: "ué, a Lua não tem um lado escuro?". Tem sim, claro (com o perdão da infâmia). Se você olhar para Lua ela sempre terá um lado escuro, menos quando está na fase de cheia. Tipo no quarto crescente, metade da Lua visível está iluminada e a outra metade está escura. Portanto esse é o lado escuro da Lua!

Sonda chinesa pousa no lado oculto da Lua pela primeira vez na história

A Lua tem seu movimento de rotação sincronizado com seu movimento em torno da Terra. Quando ela gira uma vez em torno de si mesma, também faz um giro tem torno da Terra, de modo que sempre mostra a mesma face para nós. A outra face está permanentemente oculta. Então a face que a gente não vê é o lado oculto e foi lá que desceu a sonda chinesa.

Essa foi a primeira vez na história que um pouso desses foi tentado e conseguido. O maior problema é com as comunicações, pois como o lado do pouso está sempre voltado para o espaço, não há uma ligação direta. A China resolveu esse problema lançando um satélite no começo de 2018 que ficou estrategicamente posicionado para servir de ponte entre a Terra e o módulo.

O lançamento da Chang’e 4 aconteceu em meados de dezembro e no final do ano a sonda começou a reajustar sua órbita, fazendo ela encolher cada vez mais. Sem muito alarde, como é praxe no programam espacial chinês, a sonda foi posicionada a 15 km de altura para "aguardar o momento adequado para o pouso", de acordo com as fontes oficiais. Ninguém tinha ideia de quando o pouso ocorreria, mas radioamadores na Europa disseram que a o tráfego de comunicações entre a nave e o comando da missão estava intenso, o pouso deveria ocorrer no começo do mês.

O momento adequado acabou sendo dia 3 de janeiro, à 00h26 (horário de Brasília), coisa que só ficamos sabendo através de postagens nas redes sociais chinesas que eram traduzidas pelos colegas chineses radicados nos EUA e Europa. Não havia nada de oficial e quando finalmente a rede de TV estatal chinesa soltou um tuíte confirmando, ele foi apagado em menos de 1 minuto. Resultado: tensão no ar!

As redes sociais chinesas transbordavam de felicidade, mas nenhuma confirmação oficial, nenhum tuíte de alguma autoridade ou membro da agência espacial chinesa. Nada. Levou mais de uma hora até que uma das redes de TV da China finalmente confirmasse o sucesso do pouso, aliviando meio mundo de nerds que estava pendurado na internet madrugada adentro!

O pouso de fato ocorreu no horário acima e 50 minutos depois os painéis solares se abriram para recarregar as baterias da Chang’e 4. Acho que a agência espacial chinesa preferiu esperar isso acontecer para declarar que o pouso havia sido um sucesso. Mas vai saber...

Tudo parece estar bem, no final da tarde de ontem mesmo, o jipinho Yutu 2 que foi de carona no módulo de pouso já foi liberado e está andando. Esperamos que com o conhecimento obtido do primeiro Yutu ele possa durar mais e nos envie fotos bacanas.

Aliás, um dos objetivos da missão é fazer observações astronômicas em baixas frequências de rádio usando a própria Lua como blindagem. Na Terra, esse tipo de observação é impossível por causa da "poluição rádio" de fontes comerciais. Além disso, a missão também deve estudar as características da bacia Polar Sul-Aitken, que foi criada por um violento impacto bilhões de anos atrás.

Ufa! Tudo isso em apenas três dias deste novo ano. Muito mais vem por aí e pode ter certeza que estaremos aqui para contar. Um feliz ano novo!

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Fonte: G1

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