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A ilusão do mercado financeiro

A ilusão do mercado financeiro
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A aposta em Bolsonaro para implementar um programa liberal enfrenta o limite da realidade O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes Eraldo Peres/AP O mercado, ou mercado financeiro, é uma entidade invocada em análises políticas para representar uma espécie de força oculta que move o valor do dólar, das ações, o destino econômico e financeiro da nação

O mercado, ou mercado financeiro, é uma entidade invocada em análises políticas para representar uma espécie de força oculta que move o valor do dólar, das ações, o destino econômico e financeiro da nação. Fala-se nos “banqueiros” ou na “turma da Faria Lima” como um grupo coeso, de interesses definidos, sempre disposto a apoiar este ou a derrubar aquele político.

Ouve-se de tudo: “O mercado não gosta do PT, mas sustentou Lula”; “Foi o mercado que derrubou Dilma”; “Temer governou para o mercado”. E por aí afora. Na medida em que esse tipo de análise rasteira encontra algum eco na realidade, esse tal “mercado” apoiou Jair Bolsonaro na eleição de 2018.

O motivo foi uma escolha astuta. Ao afirmar, no início da campanha, que Paulo Guedes seria seu ministro da Economia, Bolsonaro transmitiu uma mensagem clara: adotaria um programa econômico de matriz liberal, baseado em privatizações, abertura comercial e reformas estruturais há muito necessárias, em especial a da Previdência.

O tal mercado acreditou. Passou a apostar nele e a investir dinheiro de acordo, como se Bolsonaro fosse Guedes, como se o liberalismo estivesse no DNA do capitão reformado que até outro dia votava contra o cadastro positivo e criticava a venda das estatais.

A verdade é que a agenda econômica nunca teve importância para Bolsonaro. Sua confissão, na campanha, de que não entendia de economia e confiaria em Guedes foi recebida com aplausos e análises laudatórias. Desta vez, haveria enfim alguém capaz de pôr em marcha as reformas estacionadas na gestão Temer.

Projeções de crescimento e inflação foram feitas com base na aliança improvável entre o liberal globalista e o nacionalista populista. Consultores e analistas políticos, cuja hora de trabalho custa mais caro que a dos advogados no Supremo, fizeram a festa. Saíram distribuindo relatórios e previsões otimistas. O dólar caiu, a Bolsa subiu.

Quem tivesse um mínimo de juízo desconfiaria. Quantas vezes esses mesmos consultores não haviam errado em suas previsões? Aplaudiram Dilma como “gestora eficiente”, para depois defender o impeachment. Saudaram Temer como “esteio da estabilidade”, para depois vê-lo flagrado em tramoias espúrias. Todo início de ano chutam uma alta no PIB em torno de 3%, progressivamente ajustada para o crescimento sofrível de 1% que a realidade insiste em apresentar.

Esse tal mercado, em suma, jamais entendeu o Brasil. Do alto das janelas envidraçadas, respira o ar estanque, rarefeito e viciado das salas de reunião fechadas, distante da atmosfera carregada das ruas e da poeira das estradas. Por que, logo agora, a aposta no casamento de conveniência de Bolsonaro com Guedes estaria correta? Por que acreditar em quem gosta tanto de ser enganado?

A resposta, vá lá, continua em aberto. Mas o início do governo, as escolhas dos nomes para o ministério, a dificuldade de articulação com o Congresso, o estilo esdrúxulo da comunicação começam a deixar claro o que já era meio óbvio lá atrás: as chances de implementação de um programa liberal robusto, se existem, são mínimas.

Que fique claro: a reforma da Previdência enviada ao Congresso é a melhor e mais profunda já formulada pelo governo. A realidade política é que se revela inóspita. O Planalto desdenha (ou ejeta) os articuladores e se mostra incapaz de montar sequer uma base parlamentar. Deputados e senadores governistas se dizem contra a reforma. O presidente da Câmara se recusa a mover um dedo enquanto não chegar a proposta para os militares. O próprio Bolsonaro tem de ser contido pela própria equipe, depois de sugerir redução na idade mínima.

Alguém ainda acredita que o Congresso reformará algo pra valer? Boa sorte. Puro pensamento desiderativo, de quem põe fé na prestidigitação de Guedes, na pressão das redes sociais ou de algum espectro sobrenatural. No mundo real, no mundo das pedras duras e ásperas da política, a chance é ínfima – e encolhe a cada tuíte presidencial, a cada live no Facebook. Desta vez, o preço da aposta errada poderá ser ainda mais alto. O Carnaval acaba, como sempre, nas cinzas da desilusão.

— Foto: Arte/G1

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Fonte: G1

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