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As flores, o livro e o poeta

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A crônica da jornalista Miriam Leitão para o blog neste sábado Eu falarei de flores porque elas chegaram lindas dentro de um envelope enviadas por uma amiga mineira

Eu falarei de flores porque elas chegaram lindas dentro de um envelope enviadas por uma amiga mineira. Foram colhidas no Campus da UFMG e tratadas para se transformar em marcadores de livros. São três as flores. Uma de cor bege, outra cor de vinho, e a terceira oscila do rosa forte ao amarelo. Ela me disse, a minha amiga que as colheu nos campos do Campus, que anda entendida de flores. Então eu lhe pedirei que me instrua sobre seus nomes próprios, para que eu possa ser mais exata na próxima referência a elas neste espaço.

Chegaram numa caixa onde havia um outro presente. Na carta, ela avisou que me mandava um poeta. “É um jeito de se proteger nesses tempos que correm.” Explicou que não podia ser um poeta qualquer. “Precisa ser um poeta capaz de garantir que o Espírito de Minas te visite.” E, para ter certeza dessa ilustre visita, espalhou versos pela carta. Eu reproduzo um: “E sobre a confusão desta cidade/ onde voz e buzina se confundem/ lança teu claro raio ordenador”. O presente era uma pequena réplica da estátua de Drummond sentado em um banco da praia.

Talvez o poeta me ajude, tem razão a amiga, a pôr um raio ordenador sobre a cidade que se afogou na chuva, que deslizou pelas encostas, que desabou dos prédios, que viu o despropósito dos oitenta tiros sobre uma só pessoa. Uma pessoa só. Numa cidade só. Desordenada.

Por um bom motivo falarei também do porteiro que me ligou no último domingo avisando que um entregador subiria. Minha neta mais nova, Isabel, me olhou com ar de saber algo que eu desconhecia. Aguardou, com um sorriso, a surpresa que eu teria. Eram flores. Plantadas num vaso, eram pequenas, algumas abertas, outras ainda em botão. Isabel me mostrou onde se escondia o cartão. Nele, ela e sua irmã haviam escrito um bordado “feliz aniversário”. Mas não era tudo. Ela me avisou que deveria olhar bem para um determinado lado, porque havia uma casinha de passarinho. Feita em papel cartão, depositada sobre um dos ramos laterais, camuflava-se no mesmo vermelho das flores.

A doce lembrança das flores e sua casa de passarinhos, e todos os carinhos recebidos de filhos, noras e netos, me acompanhou na volta para uma cidade ainda batida pela tempestade. Atravessei ruas que tinham um ar de abandono. Ao chegar em casa, vi um presente sobre a mesa da sala. Era a reedição do livro que fez de mim a pessoa que sou. Em capa dura, rosa, com o rosto da autora na lombada, o livro está lindo e parece mais sábio hoje, do que quando o li pela primeira vez na minha juventude. Veio com um envelope, também rosa e, nele, o cartão de uma amiga que trabalha na editora, “sei que esse é um dos seus livros preferidos, espero que goste desta edição comemorativa”. São dois os livros, na verdade, porque a obra é dose dupla. Na capa do segundo tomo está a provocativa frase símbolo em grande destaque: “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”.

Comecei a reler imediatamente para reencontrar a sabedoria e a lucidez de Simone de Beauvoir, no seu “Segundo sexo”. Percebi que estava saudosa. O livro chega aos 70 anos como se não tivesse idade. Ainda incomoda, ainda é necessário. No Brasil de hoje ficou urgente. A capa cor de rosa é uma provocação a mais. Simone gostaria dessa edição da Nova Fronteira.

Foi então que chegou a caixa de Belo Horizonte, onde estavam o poeta que veio trazer o Espírito de Minas e as flores-marcadores de livros. Porque essa semana foi muito difícil, e vocês sabem os motivos, eu escolhi falar de flores nesta crônica de sábado. As que recebi dos netos e as mineiras que agora estão marcando as páginas do livro, eternamente irredento, que me traz a sensação de que o tempo não passou para ele. Nem para mim.

Entre flores, livros rebeldes, lembranças dos netos, a estatueta do poeta e o Espírito de Minas descansarei nas próximas horas. A semana foi dura demais para a cidade do Rio de Janeiro.

* Miriam Leitão é jornalista e escritora. Escreve crônicas aos sábados como colaboradora do blog

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Fonte: G1

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